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Do Além | Contos

O Prisma do Abismo

Uma expedição submarina acha um prisma no Atlântico Sul. Um conto de horror cósmico brasileiro.


Por: Zamboman | 22/10/2025

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Compêndio de Aventuras Vol I

Às vezes, a ciência desce fundo demais. Inspirado pelo espírito de Weird Tales e pelas aventuras de Júlio Verne (Vinte Mil Léguas Submarinas), este conto nos leva a uma expedição submarina brasileira rumo à Cadeia Vitória–Trindade, onde colossos erguem esferas e um prisma de luz respira como coisa viva. O tom é de exploração, liturgia e técnica — uma mistura de manômetros, válvulas e juramentos sussurrados — até que o fundo do mar devolve o olhar.

Narrado por um único sobrevivente internado num sanatório à beira da Praia Vermelha, o relato se abre em quatro partes e um epílogo, costurando memória, pressão e delírio. Aqui, o submarino tem pulmões, os mapas preferem o abismo e o sal exige silêncio. Se você gosta de horror cósmico, de máquinas que parecem bichos e de segredos guardados no Atlântico Sul, ajuste a respiração e venha.


Parte I — A Carta de convite e o Juramento do Sal

Doutor, se minhas mãos tremem não é da medicação, é do mar que não seca por dentro. Digo-lhe isso para que saiba o que pesa em cada palavra. Fui cartógrafo naval da Marinha; mapeei o fundo do mar com paciência de relojoeiro, aprendi a medir abismos com cordas graduadas e silêncio. Quando meu nome foi posto em disponibilidade por cortes e intrigas — pouco importa — aluguei um quarto modesto em Botafogo e me convenci de que a ciência sem navio é apenas saudade. Foi nesse intervalo de humilhação que chegou a carta.

O envelope era de um verde profundo, lacre em triângulo, papel que cheirava a maresia e ozônio. O timbre dizia Sociedade Oceanográfica Ardan, instituição sobre a qual eu ouvira sussurros em bibliotecas e clubes náuticos: gente que colecionava diários perdidos de naturalistas, cartas de pilotagem riscadas à luz de lampião, fac-símiles de mapas que os governos preferem chamar de lenda. O convite era curto e objetivo: Missão de reconhecimento e coleta ao largo da Cadeia Vitória–Trindade. Compromisso com a ciência. Sigilo absoluto. Assinava o professor Severo Ruy, cuja voz eu reconheceria em qualquer auditório.

Fui ao encontro numa casa discreta na Urca, dessas com varanda voltada para o Pão de Açúcar. Recebeu-me o próprio professor, solene, com vestimenta impecável, olhos que mediam distância e devoção com a mesma régua. Apresentou os demais: o capitão Velloso, homem de mar moldado a vento de través; Anaís de Mello, engenheira de sistemas e válvulas, moça de raciocínio afiado como faca; dois mergulhadores, Guedes e Lobach, cuja inquietação lembrava recém-convertidos.

Falou-se pouco de dinheiro e muito de glória discreta. A Sociedade — disse — financiava pesquisas que a academia não ousava endossar. Mostrou-nos uma mesa com caixas de metal etiquetadas: magnetômetros, espectrógrafos, câmaras pressurizadas. No canto, sob lona, um objeto que ninguém nomeou — apenas três círculos pintados, concêntricos, abraçando um triângulo.

Assinei termo de confidencialidade com cláusulas que me pareceram teatrais: não divulgar coordenadas, não descrever “fenômenos de geometria impossível”, não conservar “amostras cognitivas”. Ri, por dentro — achei aquilo pretensioso. Hoje preferiria ter rasgado aquilo.

Rio de Janeiro na década de 20

Rio de Janeiro em 1920. | Fonte: Wikipedia.

Partimos ao pôr do sol, discretos, em lanchas miúdas que nos levaram a um ponto de encontro além das Ilhas Cagarras. Lá, esperando como peixe abissal que sobe à tona por curiosidade, estava o Architeuthis — submarino negro, linhas de cetáceo, vigias ovais como olhos compostos. As válvulas do lastro abriram e o casco suspirou, liberando ar comprimido. Senti a vibração como uma prece antiga. O capitão Velloso fez o sinal da cruz com cuidado de quem não quer chamar atenção da própria fé.

Antes do embarque, o professor distribuiu medalhões de bronze pendentes em correias de couro. De um lado, o lema Scientia est potentia, com letra seca; do outro, o mesmo símbolo de três anéis envolvendo um triângulo. Para identificação, em caso de sinistro”, disse. O peso do metal, porém, lembrava uma promessa mais antiga. Pediu-nos que tocássemos o medalhão à língua, ritual de boas-vindas ao ofício do sal. Todos obedecemos. O bronze estava frio, o sal morno — e por um segundo tive a sensação pueril de que o mar me provava, e não o contrário.

Descemos. O interior do Architeuthis cheirava a óleo, couro e maresia aprisionada. Válvulas como órgãos, cabos como tendões. A engenharia ali não era improviso: Anaís mostrou-me o painel de controle — redundâncias, manômetros precisos, sistemas de segurança que a Marinha ainda não adotara. Austríacos, disse ela, orgulhosa. E um ou outro capricho brasileiro. O professor, passando a mão pelo metal, corrigiu: Capricho não. Vocação.

Seguimos a rota traçada por cartas que não se encontram em capitanias. Por duas noites mergulhamos e emergimos, testando batimentos, ouvindo o mar com sonar que devolvia silhuetas de serras submersas. Na terceira, notamos respostas que não pertenciam à geologia: ângulos onde a natureza gosta de curvas, eco limpo demais para coral. O professor chamou de assinatura artificial e falou do “Ponto Kairós”, um platô onde o tempo do mundo e o tempo do mar se tocam como duas lâminas.

Houve, nessa noite, algo que preferia não recordar: um coro baixo vindo do porão de bombordo — vozes humanas, talvez, ou o gemido de algo que imitava vozes. Fui checar, com a desculpa de inspecionar mantimentos, e encontrei duas caixas de madeira com o mesmo sigilo dos medalhões, lacradas por pregos longos demais para caixas de instrumento. Do outro lado do corredor, Guedes e Lobach conversavam em sussurros, como quem repassa oração aprendida ontem. Fechei a porta. Acredito na utilidade de certos esquecimentos.

A tripulação do Architeuthis

A tripulação do Architeuthis. | Fonte: Reprodução

A cerimônia de criação de equipe foi na câmara de reuniões, perto da proa, sob uma lâmpada que oscilava como lua de latão. O professor falou de Ardan, “o santo patrono dos que descem”, uma piada que ninguém ousou rir; descreveu a missão como “resgate de um artefato de alto interesse científico e histórico”; advertiu que o sigilo não era só convenção, mas proteção “para mentes e costas”. Pediu-nos, então, um voto simples: o Juramento do Sal — manter silêncio fora do casco, respeitar as ordens de submersão, nunca tocar aquilo que brilha sem fonte. Foi quando notei que, ao pronunciar “sal”, Anaís crispou a mão, como quem se lembra de queimadura. Ela já conhecia esse ritual, percebi tarde demais.

O primeiro mergulho operativo estava marcado para a madrugada, no limite da lua minguante. O Architeuthis afastou-se do raio preguiçoso dos faróis costeiros e rumou para mar aberto, motor cantando em tom de órgão. No radar, a cadeia Vitória–Trindade desenhava uma espinha; no sonar, o platô respondia com um silêncio grosso, desses que não cabem num auscultador comum.

Antes de tentar dormir, passei pela sala de cartas. O professor desenhava sobre um papel fino uma constelação que não reconheci. “Não é do céu, é do fundo”, disse, sem levantar os olhos. “Nossos ancestrais olhavam para cima por falta de equipamento. Nós podemos olhar para baixo.” Pedi o nome da constelação. Ele sorriu, dedo sobre o triângulo do medalhão: “Amanhã você ouve. Por enquanto, aprenda a respirar de acordo.”

No beliche estreito, com o casco estalando ao ceder ao mar, compreendi que, na vida, há dois tipos de descida: a que leva a um trabalho e a que nos apresenta uma pergunta que não precisávamos conhecer. Dormi mal. Sonhei com estátuas que seguravam esferas e com um triângulo de luz que girava por trás da testa como farol voltado para dentro. No sonho, alguém virava o triângulo três vezes, e a cada volta, algo dentro de mim aprendia a ter medo. Acordei com gosto de metal na boca e a clara impressão de que alguém, lá fora, esperava minha assinatura — não no papel, mas na água.


Parte II — Os colossos que sustentavam esferas

Submergimos na mudança de maré, quando a água parece respirar mais fundo. O Architeuthis apagou os faróis externos, deixando apenas três cones de luz amarela, oblíquos, que cortavam o escuro como facas velhas. O capitão Velloso calculou o mergulho com a parcimônia de quem conta vela em procissão; Anaís conferiu três vezes as válvulas do lastro; eu, como sempre, medi com o ouvido — há pressões que não se leem nos manômetros.

Vestimos os escafandros na antecâmara: cobre batido, vidro espesso na viseira, junta graxosa nos ombros; trajes que custam a dobrar e, quando dobram, avisam com estalo. O ar vinha do sistema de bordo por mangueiras reforçadas, e o rádio, pouco confiável, chiava como concha no ouvido. Guedes e Lobach, apesar do peso, se moviam com a pressa dos convertidos. O professor Severo, de medalhão reluzente no peito, falava baixo como quem repete um salmo que só ele sabe inteiro.

— Ao primeiro sinal de turvação, recuamos — disse Anaís, sem alarde, olhando para mim. — Sem heroísmo.

Assenti. Um hidrocartógrafo pode ser teimoso, mas não é mártir.

Enquanto nos preparávamos, ouvi novamente aquele coro vindo de bombordo — mais baixo agora, quase um murmúrio. Anaís notou meu olhar e sussurrou: “Não pergunte. Se perguntarmos, teremos que responder”. Não entendi então. Entendo agora.

O portal abriu, a água entrou como um animal grande e bem alimentado, e, por um instante, fomos só bolhas dentro da boca do mar.

O platô apareceu depois de um corredor de areia onde nada crescia — e isso, no Atlântico, já é sinal de que algo está errado. Isso, por si, já era indício: o Atlântico não gosta de vazios. A luz do Architeuthis revelou então as estruturas — primeiro como cortes de sombra, depois como volumes que a mente tenta ajustar a realidades conhecidas. Havia colunas robustas enegrecidas por lulas antigas. Além delas, figuras humanas de proporção impossível, erguidas sobre pedestais. Cada uma segurava uma esfera armilar — aqueles instrumentos antigos de navegação celeste, com anéis concêntricos que o tempo não havia pacificado. Aquelas estátuas não foram domadas por coral; pareciam ter brotado já adultas da cama rochosa.

— Colossos — murmurei, esquecendo que o rádio entregava o pensamento.

— Guardiões — corrigiu o professor, com a serenidade de quem troca a etiqueta num herbário.

Colosso submerso no oceando.

Um dos colossos submersos no Atlântico. | Fonte: Freepik

As inscrições nas bases, embora consumidas, guardavam cortes oblíquos e três pontos repetidos em sequência, uma pontuação sem língua. A areia ao redor fora varrida, como se ali não pousassem sedimentos. Senti que pisava uma praça e, no centro dela, havia a coisa que nos chamara de tão longe: um anel quebrado de aros metálicos, cravejados de gemas negras que aceitam mal a luz, e, no miolo, uma cavidade de onde emanava uma fosforescência verde-azulada — não um brilho constante, mas uma respiração.

— Não toque — avisou Anaís, antes mesmo que o professor respirasse. — Isso emite… não sei. Mas emite.

— Uma espécie de bioluminescência sem fonte aparente — arrisquei, mais para me ouvir dizer algo confortável do que para convencê-la.

— A fonte é o próprio mar — disse o professor, satisfeito. — O mar quando se lembra do céu.

Os peixes dali, poucos, nadavam em linhas retas demais, como se obedecessem a réguas que não conheço. Uma raia cruzou nosso campo de visão e, por um segundo, dobrou a própria sombra em ângulo. Decidi não comentar.

Guedes se aproximou da base de um colosso e, pelo rádio, perguntou com voz pequena:

— Qual constelação é esta?

Ele apontava para a esfera armilar. Não havia constelação alguma, apenas anéis e indexações que lembravam escala logarítmica. O professor respondeu com doçura que aquilo descrevia “a respiração do mundo”, frase que se diz a crianças para não gastar saliva.

Enquanto isso, Lobach contornava a coroa de aros. Pousou a mão enluvada numa das peças e retirou-a com um sobressalto.

— Sente… morno — disse. — Aqui embaixo.

Não era possível. A água a essa profundidade beirava o desconforto para os ossos. Pus a palma sobre a peça; a mornura atravessou o couro como lembrança. Aproximei os olhos da superfície: ela era lisa demais para metal antigo e, ainda assim, sulcada por símbolos microscópicos — traços minúsculos que, vistos de lado, faziam lembrar o recorte de um mapa. Não um mapa de terra, nem um de céu. Um mapa de pressão — ou de profundidade. Como se alguém tivesse cartografado não a terra, mas o próprio peso da água.

— Este é o arranjo de ressonância — explicou o professor, exibindo uma pasta plástica protegida por fita. Dentro, um esquema: cada aro correspondia ao nosso medalhão — não por número, mas por posição dos três pontos em torno do triângulo. — Nós alinharemos os aros às cartas — continuou —, e, assim, a estrutura abre. É um cofre. A ciência é chave; o sal, fechadura.

“Abre”? — repetiu Anaís, seca. — De que lado?

Severo sorriu, e foi como ver alguém contentar-se com a fome.

Organizamos o procedimento. O Architeuthis manteve as luzes em manta sobre o centro; Velloso, no controle, estabeleceu pulsos de brilho que marcavam tempo — um, dois, três, pausa, um, dois, três —, de modo que, se o rádio nos traísse, o ritmo governaria a ação. A cada pulso, um de nós moveria um aro da coroa quebrada até o encaixe correspondente no círculo, obedecendo ao padrão dos três pontos. Eu anotei, não porque fosse esquecer, mas porque escrever cria uma distância benigna.

O Prisma do Abismo

O Prisma do Abismo. | Fonte: Pinterest.

Ao erguer o primeiro aro, experimentei uma resistência — como se a água, ciumenta, o quisesse de volta. O metal, ao deixar o leito, emitiu uma nota grave que não ouvi, senti, na raiz do dente. Posicionei-o no cavalete marcado com a mesma tripla pontuação do meu medalhão. Assentou com docilidade. A areia respondeu com pequena nuvem, e o Prisma — sim, agora havia forma ali, como quando o nevoeiro aceita ser triângulo — acendeu dois graus além do que eu julgava possível.

— Viu? — exultou o professor. — Resposta de fase.

Anaís não comemorou. Aproximou-se do prisma com o fotômetro, e o ponteiro, bicho tímido, recuou além da escala.

— Isso mede o que não foi fabricado para medir — disse, mais para si. — O erro aqui… não é erro. É outro instrumento.

Guedes, por sua vez, cruzou as mãos sobre o capacete como devoto em procissão, e disse algo que me gela até hoje:

— Ouço gente falando português ao contrário. Palavras que fazem sentido, mas pronunciadas de trás para frente.

— Rádio saturado — respondi, com pressa. — Eco de transmissão.

— Não. Eles conjugam bem.

Fizemos o segundo e o terceiro encaixes. A cada aro posicionado, a praça parecia nivelar os próprios ruídos — a crocância do coral, o arrasto da areia, o ranger do metal — até restar um sopro que vinha de baixo. Não como exsudação de gás; como respiração. Os colossos sustentavam suas esferas em silêncio de banco de igreja. O Architeuthis, suspenso logo acima, piscava luzes que desciam em colunas sobre nós, pilares de um templo invertido.

— Falta pouco — disse Severo. Sua voz, pelo rádio, agora tinha eco. Eco não se faz dentro do mar. O som, ali, aprende outros caminhos.

Não sei explicar ao senhor com a frieza dos relatórios, Doutor, mas foi nesse instante — entre o quarto e o quinto aro — que percebi a mudança. Meu medalhão estava morno como a peça de Lobach; a língua pesou na boca, como se o sal pedisse palavra; e, atrás da viseira, vi luz atravessar a água e escolher ângulos que não estavam ali antes. Não era medo. Era atenção de caçador do outro lado.

— Último conjunto — anunciou Velloso, do casco, cadenciado. — No meu pulso.

Ajustamos as mãos sobre o sexto aro. O Prisma — já assumindo seu corpo, nítido, dentro do nicho — pulsou num compasso que não coincidiu com o que o capitão ditava. Dois ritmos, dois corações. E, por um segundo, tive a certeza pueril e terrível de que algo, lá embaixo, contava a nós.

Guedes fez o sinal-da-cruz com vagar, raro gesto no fundo do mar. Eu repeti, não por fé, mas por reflexo ancestral. Posicionamos o último aro. Tudo se encaixou com a perfeição que apenas a geometria — e os cultos — apreciam.

— Agora, respirem juntos — disse Severo. — Alinhem o pensamento.

Olhei para Anaís. Ela balançou a cabeça, solicitando prudência. Mesmo assim, obedecemos ao ritmo sugerido — quatro tempos para o ar entrar, quatro para sair — e, nesse coro invertido, o Prisma respondeu com uma luz que não iluminava, pesava. Os colossos, ou o que neles dormia, esticaram sombras em direções erradas. O Architeuthis rangeu uma nota muito humana.

E então, Doutor, a praça respirou conosco.


Parte III — O canto da pressão

Doutor, há sons que o ouvido não ouve e, mesmo assim, quebram coisas por dentro. Quando alinhamos o último aro e a praça aceitou nosso fôlego como compasso, começou o que só posso chamar de canto da pressão: um coro sem notas, feito do peso da água brincando de órgão com nossas cartilagens.

— Basta um circuito de sangue e sal — explicou o professor Severo com uma placidez de altar. — O mar é condutor; nós somos a chave.

Só então percebi a lâmina curta presa por magneto ao protetor do pulso. Severo ergueu a mão engantada no couro da luva, como quem mostra um truque, e traçou um risco mínimo na junta do indicador. Uma gota borrou a graxa, coagulou num instante impossível e sumiu para dentro do metal, como quem encontra velho caminho. Anaís sacudiu a cabeça, enfática.

— Não há necessidade de ritual — disse, controlando a respiração. — A estrutura já respondeu. Sem imprudências.

Severo sorriu — e o sorriso dos devotos parece sempre prever perdão.

— Ciência é repetição — respondeu. — Repetiremos como manda o protocolo.

Não foi ordem direta, mas soou como. Velloso, hesitante, mostrou o pulso; havia ali cicatriz antiga, dura como cabo de amarra. Guedes imitava o professor com uma avidez que me embrulhou o estômago. Cedi por covardia e por curiosidade: cortei a luva junto da unha, pequeno o bastante para chamar de nada. Quando a água tocou meu sangue e meu sangue tocou o aro, o Prisma respirou.

Não de luz apenas — de intenção. Três fôlegos de verde-azul atravessaram a água e encontraram meu vidro. Senti o brilho pousar sobre a viseira como mão quente, escorrer para dentro feito língua e morder região do cérebro que o senhor insiste em chamar de segura. Não foi dor; foi clareza demais, tão violenta que a mente se protegeu chamando-a de fé. Vi mapas que não se desenham com tinta: marés subindo para dentro do céu, trajetórias com curvas na quarta direção, cidades penduradas no dorso de uma criatura que dorme e respira como quem conta.

Mapas que não se desenham com tinta

O delírio além da compreensão humana. | Fonte: Pinterest

— Respirem juntos — sussurrou Severo.

Respiramos. O ritmo das válvulas coincidiu com o do Prisma, e por um segundo soube, com a idiotia dos iluminados, que a água estava conosco — não contra nós.

Guedes, então, parou diante de um colosso, ergueu o rosto e, rindo como criança em êxtase, destravou o fecho do elmo. Nem grito, nem hesitação: um gesto único, decidido. Nem grito, nem hesitação: um gesto único, decidido. A água se serviu dele com a doçura que a água reserva aos que voltam. Corri, inútil, sentindo o cabo me puxar; Lobach também avançou, pegando-o pelo braço. O rádio virou estática, e, nesse ruído, juro ter ouvido palavras pronunciadas ao contrário, com conjugação perfeita.

— Segura! — bradou Anaís, mas o mar não entende imperativo.

O elmo de Guedes rodopiou como bóia; seu rosto, por uma fração de segundo, virou espelho. Vi-me ali, e não era eu. Lobach, na tentativa de impedir, prendeu a mão entre aro e base; a estrutura respondeu como porta que fecha com violência. Quando ele recuou, a mão voltou deformada — pálida, com as unhas crescendo para dentro, como se tivessem saudade do osso. Ele rriu. Foi o riso mais inadequado que já ouvi.

— Desfaçam o arranjo — ordenou Anaís. — Agora!

Tentei. O aro sob meus dedos aderiu como se tivesse raiz. O Prisma ganhou peso, sugando o olhar e prendendo-o como anzol. Velloso, do casco, modulou luzes desesperadas — um, dois, três; um, dois, três —, mas a praça já nos marcava outro compasso. Pelas vigias do Architeuthis, vi sombras se moverem onde não havia gente. Então, em algum ponto do lado esquerdo do submarino, alguém começou a cantar.

Não me envergonho do que digo: não reconheci as vozes. Não eram os quatro tripulantes em turno; eram muitas; eram velhas; eram novas. Então, em algum ponto do lado esquerdo do submarino, alguém começou a cantar. Vinham de dentro do casco e de lugares onde o casco não existe. As caixas de bombordo. Percebi tarde demais o que viajava conosco. O canto escolhia palavras da nossa língua e as dobrava como mascaron em proa: família de sílabas que pareciam de casa e, no entanto, não moravam aqui.

As esferas armilares dos colossos começaram a girar — lentamente, primeiro; depois, com fluidez de relógio que conhece antecipadamente a hora seguinte. Em suas argolas, surgiram marcas de luz, como se construíssem diante de nossos olhos um céu que não pertence à Guanabara, nem a latitudes humanas. Eram linhas de navegação para seres que não temem a pressão. As constelações acendiam e apagavam sem estrelas: eram projeções de vontade.

— É o mapa respiratório… — murmurou o professor, extasiado. — É a cartografia do íntimo marinho!

Anaís agarrou-o pelo ombro com força.

— Pare — disse. — Olhe para Guedes. Olhe para Lobach. Isso é homicídio.

Severo não olhou. Em vez disso, ergueu as mãos, palmas abertas para o Prisma, e recitou qualquer coisa que os inscritos nas bases pareceram reconhecer. Nunca saberei se aquilo foi leitura ou imitação. O Architeuthis respondeu com um estalo que corri pelo casco como raio em árvore molhada. A água esfriou ao nosso redor com lógica que nenhum termômetro acompanha.

Então o Prisma se abriu.

Não como se abre uma caixa — como se separasse duas lâminas de água que, até então, fingiam ser uma só. Entre elas havia um espaço mais frio que o mar, mais escuro que a noite do mar e, ainda assim, visível. De lá, doutor, alguém nos olhou. Digo “alguém” por pobreza de repertório. Talvez fosse só a curiosidade de uma ideia; talvez o instinto de um animal que sonha; talvez a atenção indiferente de Deus quando passa pela cozinha.

O Grande Olho

De lá, doutor, alguém nos olhou. Digo “alguém” por pobreza de repertório. | Fonte: Pinterest

O olhar não doeu. Informou. Entregou-me, como quem oferece ferramenta, a forma de uma pergunta que me prendia por dentro. Senti a pergunta entrar como arpão e ficar com as farpas abertas no meu peito. Ouvi-a, nítida:

Quantos triângulos é preciso virar para que uma criatura aprenda a sonhar?

A areia das juntas de meu escafandro começou a rangir como se crescesse para onde não existe. Os aros vibravam numa frequência que achei conhecer — e, por conhecer, temi: era a frequência do nosso fôlego. Nós alimentávamos aquilo.

— Corta o ar! — gritou alguém no casco; talvez Velloso, talvez outro. — Isola a linha!

Anaís reagiu antes do medo. Abriu o painel de distribuição do nosso umbilical e reduziu o fluxo por um segundo que pareceu punição; o Prisma falhou, como lâmpada prestes a queimar; voltou mais forte. Aprendera-nos. Foi nesse hiato que percebi, com lucidez que só aparece em desastres, o erro cardinal da nossa espécie: fizemos rituais sem acreditar que fossem rituais — e o mar acreditou por nós.

Lobach calava, abraçando o toco enluvado; e tinha, juro, um sorriso que não pertencia ao rosto. Guedes descia em tranquilidade, sem bolhas, como pedra devota. Severo, agora num êxtase perigoso, inclinou-se sobre o prisma, tentando tocá-lo. Anaís tentou puxá-lo pela correia, e eu a ajudei, mas o peso do brilho parecia colar o professor ao eixo do que se abriu.

No Architeuthis, o canto ficou mais próximo. Ouvi palmas — palmas ritmadas, de muitas mãos. Veio-me um pensamento sujo, e eu o compartilho porque a sanidade pede testemunhas: havia mais gente a bordo do que subira no cais. As caixas de bombordo… não eram só instrumentos.

— Valvulas! — rugiu, enfim, o capitão, rompendo o encanto como quem dá tapa em sonâmbulo. — Preparar subida forçada!

O som de travas responde ao de ordem como coração ao susto. Mesmo assim, o casco gemeu em língua de coisa viva. As esferas armilares aceleraram, e a praça inteira — colossos, aros, areia, nós — começou a respirar num uníssono que escrevo tremendo. Respirar não é a palavra; é o que nosso corpo entende quando algo maior o contrai e o liberta.

Eu teria rezado, Doutor, se me lembrasse de oração. Em vez disso, pensei no Pavilhão 3 que o senhor me mostrou no primeiro dia e no tanque do jardim, onde a água finge descanso. Pensei na possibilidade absurda de que, se subíssemos, trazeríamos conosco um pedaço daquele céu de baixo — preso por mangueira, cabo ou pergunta.

Foi nessa indecisão, entre válvulas e êxtase, que a água ficou muda. Não silêncio — mudez. E a mudez, Doutor, pesa mais que a pedra.


Parte IV — As válvulas e o mudo

A mudez caiu como lona molhada sobre tudo. Não era a ausência de som comum às grandes profundidades; era presença que esmagava ruídos até que o próprio pensamento parecesse fazer bolhas. O rádio virou luz muda piscando sem convicção. O Architeuthis rangeu uma sílaba e, depois dela, nada — como se tivesse entendido que qualquer palavra seria um sacrílego dentro daquela praça.

Velloso apareceu na vigia da câmara de mergulho com gestos secos de quem já enterrou camaradas: subida forçada, esvaziar os tanques de frente, aliviar o lastro de trás. Anaís respondeu no mesmo idioma mímico, signo sobre signo: abrir válvulas de emergência, purgar os tanques, travar o equilíbrio. Severo, entretanto, permanecia de joelhos diante do Prisma, palmas abertas, o medalhão batendo no vidro do escafandro como pêndulo de oratório.

Tentei desfazer meu aro. Ele não se moveu. Tentei o de Lobach: colado como se tivesse criado raízes na base. O Prisma me percebia e, sempre que eu esticava o braço, estendia, do nicho, uma luz morna que me tocava a luva como quem pede confiança. Bastou um contato para que, sob o escafandro, uma paz sem arestas me invadisse, paz com cheiro de salmoura e esquecimento. Retirei a mão como quem recusa dormir no meio de um incêndio.

— De pé! — bradou Anaís, e o berro perdeu metade da coragem ao atravessar mangueira e água. — Soltem o círculo!
— Ele não quer — respondeu Lobach, rindo com dentes que não se decidiram se eram dele. — Eu também não.

Interior do submarino com luzes vermelhas

Visão do interior do Architeuthis. | Fonte: Wikipedia

O casco vibrava sob nossos pés; pelos tubos do umbilical, senti o fluxo de ar variar. Velloso abrira as válvulas de lastro: bolhas subiam como procissão e, mesmo daqui, eu via sua sombra estourar contra a barriga do submarino. A praça respondeu contrariando a física: os colossos inclinaram suas sombras na direção oposta à das bolhas. As esferas armilares começaram um giro sincrônico — primeiro como relógios de parede trocando segredos, depois como molas que lembram o ponto exato de retorno. No miolo, o Prisma falhou um instante e voltou com fome.

— Último aro! — insistiu Anaís, agarrando o ombro de Severo. — Ou morremos agora, ou morremos olhando. Prefiro agora.

O professor murmurava sílabas que as bases pareciam reconhecer. Seus olhos estavam claros demais. Quando Anaís puxou o medalhão para trás, ele a olhou como quem contempla uma criança tomada por febre.

— Não atrapalhe o parto, minha filha.

Foi o que bastou. Vi Anaís vacilar; no segundo seguinte, ela voltou ao ofício: plantou os pés na areia, prendeu a correia do professor à fivela da cintura e puxou. Eu a ajudei. O corpo de Severo veio um pouco, como quem concede, mas a luz não quis soltá-lo. Em cima, o Architeuthis finalmente gritou — um estalo de chaparia que correu pelo casco como racha em gelo. A luz do convés apagou e retornou fraca, verde, doente.

Guedes boiava tranquilo, elmo perdido, olhos agora monótonos como moedas no escuro. Lobach abraçava o próprio cotoco com ternura; eu ainda podia ouvir as unhas crescendo para dentro, som teimoso que raspava a nuca. Senti no peito algo esquentar através de várias camadas: o medalhão. O triângulo gravado nele parecia pulsar na mesma cadência do Prisma. Levei a mão ao peito; o metal estava morno, e, quando toquei o relevo, a luz do nicho respondeu como um cão que reconhece assobio.

— Agora! — fez Anaís com a cabeça, num gesto desesperado.

Aproveitando o vacilo do brilho, desencaixamos um aro. Ele saiu com som de ventosa, e a praça enfureceu. A mudez ficou mais pesada; os colossos esticaram sombras até quase nos tocarem; o Architeuthis sacudiu como berço na mão de gigante. Severo se soltou de nós com um gesto rápido — ou foi solto. A luz engoliu suas mãos primeiro, depois o busto, e quando percebi, o professor estava dentro do Prisma. Ou o Prisma estava dentro dele — qual a diferença, Doutor? A luz engoliu suas mãos primeiro, depois o busto, e, quando percebi, o professor estava dentro do Prisma, ou o Prisma estava dentro dele. Qual a diferença, Doutor? Ele sorriu com uma serenidade ofensiva.

— Está alinhado — disse, e o rádio, obediente, levou a sentença até mim, onde ela arde até hoje.

Velloso abriu tudo. Senti o empuxo morder os joelhos; a areia rodou; a praça inteira deslizou dois centímetros para onde nada havia; e o Prisma — oh, o Prisma — respirou para fora. A fenda fria se alargou, mostrando um escuro visível, e de lá veio algo sem pressa, curioso como criança diante de bicho novo. Anaís olhou para mim com convicção e medo juntos.

— Cordas. — Fez o gesto. — Qualquer cabo. Agora.

Havia, junto à base, um carretel de linha sônica para demarcação. Não me lembro de tê-lo visto antes. Nem de tê-lo amarrado ao meu cinto. Mas estava. Soltei o freio e passei a volta mais antiga que conheço, nó de marinheiro que aprende antes de saber ler. Anaís fez o mesmo; tentou firmar a fivela de Severo, mas a correia escorregou, como se repelisse qualquer intenção de volta.

A mudez se adensou de um modo que apaga os músculos. O Prisma baixou e subiu como peito de bicho enorme; as esferas pararam juntas; o Architeuthis soltou um suspiro comprido, humano; e o mar inteiro pareceu prender o fôlego à espera de ordem. Vi a mão de Anaís perdendo a cor, os dedos ficando finos como agulhas. E, no instante seguinte, tudo se moveu.

Criatura marinha do Prisma

Retrato da criatura vislumbrada pelos tripulantes. | Fonte: Pinterest

O casco do Architeuthis abriu, de dentro para fora, como lata mal cortada. O ar comprimido galopou para a água; a água galopou para o ar; e nós, miúdos, viramos detrito na rixa dos elementos. A corrente me arrancou de onde eu estava, puxando pelo cabo, e eu rolei sobre Anaís — vi sua viseira se encher de estrelas falsas; ouvi uma risada que poderia ser da água; senti a luz me pegar pelo peito.

A marca veio ali. Quente no começo, fria depois. Um triângulo se acendeu por baixo do osso, como brasão gravado em carne que não autorizou.. O Prisma quis minha mão. Eu não dei. Ele pegou mesmo assim: só uma breve vez, o suficiente para prometer descanso, apagamento, mar sem costas.

— Sobe! — gritou Anaís, voz de quem já está muito longe e, ainda assim, acerta o ouvido certo.

Tirei o pino do carretel e deixei que o próprio empuxo fizesse o serviço. O cabo me puxou com um amor grosseiro; fui subindo como quem é pescado por anzol nas costas. Anaís ficou meio segundo atrás, e Severo… Severo entrou. A luz o embalou para dentro como mãe paciente faz com filho difícil. Lobach ria; Guedes já dormia sem bolhas; os colossos mantinham as esferas erguidas com a dignidade de quem cumpre turno desde antes de haver turnos.

Subi o que, na lembrança, dura uma estação. O Architeuthis se contorcia no canto do olho, um berço nas mãos de algo que não tenho palavra. A fenda se estreitou e, ainda assim, era possível vê-la através de pálpebras fechadas. O medalhão esquentava e esfriava, preso ao peito, acompanhando a preguiça do Prisma. Penso que desmaiei duas vezes; penso que acordei três. Uma tartaruga passou perto; juro que tinha olhos de gente. Talvez fosse eu projetando ânsia num casco.

A certa altura, o peso da água mudou de sabor. O corpo conhece essas viradas; o ouvido também. Virei leve demais, rápido demais, e as referências do mundo voltaram: o sal de sempre, o escuro de sempre, uma luz muito longe que não era do Prisma, mas de quem vive de pescar quando a cidade dorme.

Ainda tive tempo de pensar no que o senhor me disse na primeira consulta, Doutor — “escrever ajuda o mar a caber”. Então acabou. Acordei com sal nos dentes, gemendo com a dignidade que cabe aos salvos sem explicação. A primeira coisa que vi foi um rosto queimado de sol me olhando com pena e com inveja. Pescadores de Abrolhos. Mãos calejadas, baldes com iscas. Pescadores. Abrolhos. Mãos calejadas, baldes com iscas, um pano cobrindo algo que brilhava.

Perguntei por Anaís. O pescador mais velho balançou a cabeça: eu estava sozinho quando me acharam, boiando como madeira, agarrado a um pedaço de cabo que brilhava no escuro. Do Architeuthis, dos outros, nenhum sinal. Apenas eu — e a marca no peito.

Levei a mão ao peito: a pele ardia, e por baixo dela o triângulo respirava sozinho.

— Deixa — disse alguém, afastando minha mão. — Tá bonito.

Tentei responder, mas a língua não obedeceu. Vi meu medalhão escorregar do pescoço para o balde; afundou entre sardinhas e pedaços de lula como quem volta para casa. Ninguém o pescou de volta. Ninguém quis. Uma risada vinda de lugar nenhum pôs medo em homem velho. E eu, doutor, apaguei outra vez, embalado por uma certeza que hoje me mantém aqui: não foi a Marinha que me resgatou. Foi o mar que me empurrou para cima porque ainda tinha coisa para me perguntar.


Epílogo — Notas clínicas e Anexos do Dr. Érico Duarte

Sanatório da Praia Vermelha — Pavilhão 3, Ala Masculina

Paciente: H. V. (41 anos), masculino, brasileiro, ex-hidrocartógrafo.
Admissão: resgatado por pescadores na região de Abrolhos; entregue às autoridades sanitárias locais e transferido a esta instituição por quadro de confusão mental com delírios congruentes ao tema “mar”, “pressão”, “luz”; hipotermia leve; escoriações.
Estado civil: não informado. Contato familiar: sem resposta.
Alergias: desconhecidas. Medicação atual: ansiolítico de baixa dose; hipnótico conforme necessidade; haloperidol se necessário (em crises agudas; evitado por piorar tema persecutório aquático); placebo de rotina (soro glicosado, 250ml, para reduzir resistência à hidratação oral).

1) Exame físico inicial

  • Cicatriz torácica em forma de triângulo isósceles, base voltada ao esterno, com fosforescência esverdeada discreta em ambiente escuro. Indolor à palpação. Sem sinais de infecção, bordas regulares, temperatura cutânea normal.
  • Olfato local: relata “cheiro de salmoura” quando aproxima a mão do próprio tórax (não percebido por equipe).
  • Audição/Equilíbrio: sem vertigem objetivável em prova de Romberg; refere “sopros” e “compassos” não audíveis pela equipe.
  • Exames de imagem: radiografia torácica sem corpos estranhos; Eletroencefalograma (EEG) com padrão de ondas anormais durante privação sensorial (ver Anexo B).

Impressão: lesão cutânea atípica + fenômenos perceptivos com conteúdo coerente entre si, evocando trauma recente em ambiente marinho sob alta pressão. Etiologia orgânica ainda não descartada; porém, conteúdo simbólico consistente sugere psicose breve precipitada por estresse extremo.

2) Curso hospitalar (dias 1 a 12)

Dia 1–2: paciente orientado parcialmente; insight flutuante. Repete a frase “Scientia est potentia” com alternância de reverência e repúdio. Desenha colossos erguendo esferas armilares; solicita “papel fino” e “lápis mole” — fornecidos.
Observação: quando desenha, ritma a respiração em séries de quatro tempos. Saturação periférica de O₂ não oscila.

Dia 3: à noite, enfermagem reporta brilho triangular esverdeado no tanque ornamental do jardim (turno 23h–03h). Amostra de água colhida em frasco âmbar. Resultado: laboratório extraviou o material (ver ocorrência 107/α).

Dia 4: sessão terapêutica estruturada. Tema central: “praça que respira”, “aros”, “prisma”. Quando solicitada localização, o paciente escreve coordenadas com deriva diária de poucos minutos de arco, descrevendo arco móvel sobre a Cadeia Vitória–Trindade. Afirma: “Ainda estão descendo.”

Dia 5: tentativa de fotografia da cicatriz em ambiente escuro. Resultado: imagem leitoso-esverdeada sem foco; metadados com timestamp duplicado (relógio da câmera apresentou “salto” de dois segundos). Repetição com outra câmera: falha semelhante.

Dia 6: crise breve de mutismo reativo ao som de água pressurizada no corredor (troca de filtros). Ao ser tocado, paciente sussurra: “O mudo pesa mais que a pedra.” Sedação leve. Retoma contato sem ideação auto/heteroagressiva.

Dia 7: solicita espelho “para ver se o fundo também tem céu”. Pedido negado por risco. Medida ambiental: retirada de objetos especulares do quarto (incluindo vidros polidos de quadros). Recomendação: evitar mapas, fontes de água e espelhos no Pavilhão 3, especialmente próximo ao paciente.

Dia 8: paciente aceita hidratação oral quando a água é oferecida em caneca opaca. Recusa copos transparentes (“elas sobem pelas paredes”). Insiste em deixar “um lugar de respiro” no parapeito da janela.

Dia 9: novo desenho de armilar com marcas móveis. Sequência de pontos igual à que anota no peito com o indicador antes de dormir. Observação: a cada traço do triângulo, a cicatriz palidece e volta ao tom basal (padrão pulsátil, 6–7 ciclos/min).

Dia 10: avaliação neuropsicológica: memória de trabalho preservada em tarefas não relacionadas a “mar”; hipermnésia para detalhes náuticos; juízo crítico presente quando a temática é desvinculada do episódio (“Não quero que meu delírio contamine quem não tem costas para carregá-lo”, verbalização espontânea).

Dia 11: durante a madrugada, sentinela de corredor relata condensação na face interna do visor de relógio (modelo analógico), com formação de figura triangular por alguns segundos. Troca de relógio recomendada. O funcionário solicita transferência de setor no dia seguinte.

Dia 12: paciente, ao ser questionado sobre a morte dos demais membros da expedição, diz apenas: Alguns dormem bem. Outros aprendem a sonhar. Severo está aprendendo até agora. Solicita papel, escreve de próprio punho: “Se subirmos cedo, o fundo vem atrás.” Em seguida, pede desculpas por “não saber dizer sem convidar”.

3) Impressões clínicas

  • Transtorno psicótico breve (F23) com temática específica (abissal, hipergeométrica), secundário a evento traumático marinho; curso flutuante, sem agressividade; risco de contágio ideativo por mimetismo (equipe deve evitar confronto simbólico — mapas, astrolábios, fotografias subaquáticas em sua presença).
  • Fenômeno cutâneo-luminescente (cicatriz triangular) sem correlato químico identificável. Exame com luz negra e espectroscopia portátil sem achados consistentes.
  • Eventos ambientais (tanque do jardim, relógios, fotografia): explicações plausíveis incluem erro humano, condensação, defeitos de equipamento, sugestionabilidade coletiva. Nota: manter ceticismo operacional.
  • Prognóstico: reservado a médio prazo. Alta adiada. Reavaliação semanal.

4) Recomendações operacionais

  • Manter luzes quentes no quarto (evitar brancos frios).
  • Hidratação não translúcida (caneca opaca).
  • Proibição de mapas, espelhos e instrumentos náuticos na ala.
  • Evitar metáforas marítimas em sessões (substituir por linguagem neutra: “pressão”, “ritmo”, “compasso” somente em contexto clínico).
  • Registrar coordenadas escritas pelo paciente sem devolvê-las a ele (evitar reforço). Arquivar sob sigilo (ver pasta “HV/Coords/Lock”).

5) Anexos

Anexo A — Amostra de água (tanque do jardim, turno 23h–03h)
Etiqueta 107/α. Destino: laboratório parceiro. Situação: extraviada no trajeto (ofício 22/-M). Recolhimento suspenso por 72h.

Anexo B — EEG (privação sensorial, sala escura)
Anomalias paroxísticas em ondas lentas no momento da respiração ritmada (4/4). Traçado em forma de delta sugere artefato, porém repetições em duas sessões com mesmo contorno triangular. Técnico recomenda revisar blindagem da sala (sem panes elétricas registradas no período).

Anexo C — Esboços do paciente
Quatro pranchas com colossos sustentando esferas. Nas argolas, marcas que mudam de posição entre pranchas. No rodapé, legenda manuscrita: “céus de baixo”.

6) Dialogias selecionadas (trechos)

Doutor: “Quando o senhor diz ‘mudo’, quer dizer silêncio?”
Paciente: “Silêncio a gente divide. O mudo não reparte.”

Doutor: “O que acontece se alguém tocar o prisma?”
Paciente: “Ninguém toca ele. É ele quem decide quantos tocam.”

Doutor: “E os que ficaram?”
Paciente: “Ainda estão descendo. O mar é paciente.”

7) Observação pessoal do médico (não constar no laudo oficial)

  • Redigi estas linhas após terceira noite consecutiva em plantão. Ao apagar as luzes do Pavilhão 3, percebi reflexo triangular no vidro do meu relógio (modelo digital, sem condensação aparente). Não confio em memória fatigada; contudo, anotei o horário e a forma (isósceles, base para cima).
  • Passei pelo tanque do jardim: água imóvel; ainda assim, impressão de “respiração” no canto à direita, como quando menino encosta coqueiro no ouvido e diz que ouve mar. Não reportei à equipe — receio induzir pânico por imitação.
  • Considerei a transferência para outra ala. Optei por permanecer até estabilização do paciente H. V. Não por bravata, mas por dever. Nota a mim mesmo: trocar relógio; evitar janelas após 22h.

Ass.: Dr. Érico Duarte (CRM-RJ 27.4xx)
Carimbo: Sanatório da Praia Vermelha — Direção Clínica

Pós-escrito manuscrito (encontrado no verso de uma das pranchas do paciente)

“Doutor, se eu melhorar, peço que guardem mapas longe de mim. Se eu piorar, peço que me levem ao jardim ao entardecer. Às vezes o fundo sobe só para ver. Não precisa chamar. Ele vem quando a gente respira junto.”

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Marcelo JK “Zamboman”

Jogador e Mestre de RPG desde a época em que os dinossauros caminhavam pela Terra. Fã de ficção científica, mestre de Star Wars Saga e mestre em tirar aventuras improvisadas da cartola.