O Despertar do Dragão

16/11/2016 | Baú do Mestre | Por: Ghost

O ano era 1994. O RPG como conhecemos ainda engatinhava em terras tupiniquins, e a editora Trama lançou a primeira revista em Português sobre o tema, a Dragon. Após apenas duas edições com esse nome, foi atualizada para “Dragão Brasil” (para evitar confusões de todo tipo com a revista americana chamada Dragon, que viria a ser publicada no Brasil ).

Após 111 edições, no ano de 2009, a Dragão Brasil chegou ao seu fim. Conflitos internos levaram à saída da equipe original mais ou menos na época da publicação do número 100.

A equipe original não demonstrou nenhuma intenção de trazer a revista de volta, até que ocorreu um acontecimento daqueles que não dá para deixar passar.

Com a estreia da série “Stranger Things” no Netflix, e todo o seu saudosismo oitentista, o J.M. Trevisan (um dos autores da antiga Dragão Brasil) criou, na mais pura brincadeira, uma capa do que seria a DB 112, essa que você vê abaixo.

db112-capa

Acontece que a imagem viralizou nos meios nerds do facebook e, meio que de brincadeira, a equipe da Jambô Editora (da qual o próprio Trevisan faz parte atualmente, e que publica o cenário de Tormenta, umas das heranças da antiga DB) resolveu fazer uma edição especial com as matérias que haviam sido citadas na capa e disponibilizar no site da editora.

A procura pela edição terminou por derrubar o site da Jambô e o deixou indisponível por várias horas, devido ao elevado número de acessos e downloads.

O resultado não poderia ser outro. Após alguma negociação, a Dragão Brasil foi relançada, na pegada original, exclusivamente em formato de assinatura digital.

O Dragão  Ressurrecto

A Dragão Brasil 113 (a 112 foi, oficialmente, a edição especial sobre “Stranger Things”) tem a mesma estrutura clássica da revista impressa, mas em um formato bastante diferente, widescreen (isso está escrito na página do Apoia.se, onde se assina a revista, mas não de forma explícita. Explico: a página diz “Nesta nova fase, é uma revista digital, em formato PDF, ajustada para leitura na tela do computador”. IMHO, não deixa muito claro sobre o formato widescreen, que não é adequado para leitura em outros dispositivos (tablet, por exemplo).

Dragão Brasil 113

As seções mantêm seus nomes originais, velhos conhecidos de quem lia a revista em sua encarnação anterior.

Abre com a clássica “Notícias do Bardo”, agora escrita em parceria pela equipe do site RPG Notícias , e aborda de maneira bastante rápida novidades do mundo RPGístico.  Em seguida, os “Pergaminhos dos Leitores”,      que, como se trata do primeiro número após uma longa hibernação, na verdade não tem “cartas” enviadas por leitores, mas segue o estilo antigo: personagens respondendo as mensagens. Estão lá o clássico Paladino, a Paladina, o Anti-Paladino e por aí vai.

Em seguida a também clássica “Dicas de Mestre” que, nesse número, foca em mestres bem iniciantes e dá dicas do que fazer antes de mestrar sua primeira sessão de jogo. Aqui a revista já mostra que entrou na onda moderna, citando inclusive alguns canais do YouTube, que transmitem partidas ao vivo.

Existem também as matérias maiores. Temos a adaptação para 3D&T de “No Man’s Sky” (uma escolha interessante, considerando as críticas que o jogo recebeu). A adaptação é bastante abrangente, apresentando equipamentos pessoais e para as naves, regras para ambientes hostis, exploração de recursos… tudo muito semelhante ao polêmico game.

Ressurge “A Gazeta do Reinado”, seção que era parte da Dragon Slayer (revista que foi a sucessora espiritual da DB), trazendo breves atualizações sobre o mundo de Tormenta, na forma de um jornal. Pessoalmente acho uma das partes mais interessantes da revista, mesmo não jogando no cenário de Tormenta.

Uma seção nova na revista é “A Voz do Sabre”, focada em “Brigada Ligeira Estelar”, cenário espacial feito especialmente para o sistema 3D&T (com direito a tudo que um cenário de ficção científica para 3D&T pede, como robôs gigantes e piratas espaciais).

Monster Chef” é mais uma das novas seções, inspirada no quadro de mesmo nome do canal no YouTube da Jambô Editora, no qual J. M. Trevisan, Felipe Della Corte, Rogério Saladino, Alvaro Jamil Freitas e convidados ocasionais criam, totalmente no improviso, um monstro para Tormenta RPG.

Uma matéria “Especial”, na qual os autores/editores citam suas edições preferidas da antiga encarnação da DB, bem como os motivos que os levam a considerá-las suas preferidas. Confesso que aqui bateu uma nostalgia muito forte, mesmo por que a DB 05 (a primeira que comprei e li) foi citada.

Também um conto (“Dedicação”) no mundo de Tormenta. As primeiras edições da DB publicavam contos com bastante regularidade, qualidade variando entre bom e ótimo mas, infelizmente, eles foram rareando bastante com o passar do tempo. Esperamos que seja uma seção recorrente na versão digital.

Renascido das Trevas” fala um pouco sobre a nova edição de “Vampiro: A Máscara”, RPG muito popular no Brasil nos anos 90 e que, arrisco dizer, foi um dos responsáveis por uma aceleração na disseminação do hobby.

Segue uma matéria com 113 ganchos de aventuras (e aqui entra uma contribuição dos leitores: 25 dos ganchos foram criados por leitores que apoiam a revista no nível “Conselheiro-Mor”, que têm acesso a um grupo fechado no Facebook e ajudam a decidir o conteúdo da próxima edição).

O Avanço Implacável da Tormenta” conta a história do cenário de Tormenta. É incrível perceber o quanto o cenário se tornou multimídia, tendo diversos suplementos, romances, livros-jogos e até jogos para computador (o segundo está em desenvolvimento).

Outra seção nova, bastante promissora, é “O Lado B do RPG”, que falará sobre sistemas “obscuros”, que foram (ou são) pouco jogados. Na estreia temos “Sertão Bravio”, sistema feito como homenagem a “O Desafio dos Bandeirantes” (que foi um dos primeiros RPGs 100% nacionais, uma ousadia para a época em que foi lançado – 1994 –  tendo a história brasileira como temática. Isso pode parecer “chato” em um primeiro momento, mas tratava-se de uma ambientação interessante, incluindo lendas indígenas e criaturas mitológicas indígenas pouco conhecidas do grande público. O provável motivo do fracasso de “O Desafio dos Bandeirantes” é que o sistema de regras era antiquado). “Sertão Bravio” ainda não fui publicado, mas está prestes a ser lançado (e, quando o for, é bem possível que façamos uma análise aqui no UniversoRPG).

Chefe de Fase” é a coluna que traz NPCs do mundo de Tormenta, com ficha completa para Tormenta RPG e D&D 5ª Edição. Na estreia temos Thaethnem Taheldarien, elfo ex-guarda real do palácio de Lenórienn. O NPC possui uma história bastante interessante (sem “spoilers” por aqui, entretanto).

Conclusão

A DB retorna forte, encarando o desafio de emplacar na geração mais nova (a antiga, incluindo este que vos escreve, já era garantida). O resultado final de edição de reestreia é excelente, mas obviamente ainda tem o que melhorar.

O conteúdo está perfeito. Tem a “pegada” da antiga DB, mas com um quê de modernidade, de séc. XXI, que torna o Dragão ainda mais brilhante.

Dentre os principais pontos de melhoria, posso citar um maior cuidado com a revisão (alguns typos e erros de ortografia bem feios terminaram passando, provavelmente devido à correria inevitável em um projeto assim) e o próprio formato que, embora não tenha se revelado ruim, terminou por ficar limitado. Ler a revista em uma tablet de 10” não é confortável, embora possível. Mesmo um monitor de computador não proporciona o conforto devido se não for bem grande (umas 19” ou mais é o ideal. Li a revista em um notebook de 15,6” e ainda não era o ideal, embora já funcione bem).

Sobre o formato, uma nova meta no projeto do apoia.se indica que haverá versões mobile, mas  como o frissom inicial já passou (e com o fim de ano chegando) pode ser que ainda leve alguns meses para a meta ser atingida. Aguardaremos.

A assinatura da revista é feita através do site Apoia.se (https://apoia.se/dragaobrasil).

Por enquanto, vida longa à nova Dragão Brasil.

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